Inferência em Regressão Linear — Testes Assintóticos

O Teste de Wald

O teste F precisa estimar dois modelos — restrito e irrestrito. O teste de Wald responde à mesma pergunta usando só o modelo irrestrito, medindo a distância entre a estimativa e a hipótese, ponderada pela incerteza da estimativa.

A lógica do teste de Wald

O teste F (veja a animação anterior) compara o SSR de dois modelos — é preciso estimar ambos. O teste de Wald toma um atalho: estima só o modelo irrestrito e pergunta — a estimativa β̂ está "longe demais" do valor que a hipótese H₀ diz que deveria ser, considerando a precisão (covariância) dessa estimativa? Não é preciso reestimar nada sob a restrição.

Escrever a hipótese em forma matricial

H₀: Rβ = r — R é uma matriz q×k que seleciona/combina os coeficientes testados, r é o vetor de valores hipotéticos (geralmente zero). q é o número de restrições.

Estimar só o modelo irrestrito

Obtenha β̂ (OLS completo) e sua matriz de covariância estimada Var̂(β̂) = σ̂²(X'X)⁻¹. Nenhum modelo restrito é necessário.

Calcular a estatística de Wald

Mede a distância entre Rβ̂ e r, ponderada pelo quão precisa é essa combinação de coeficientes (o "peso" é o inverso da covariância).

Comparar com o χ² crítico

Assintoticamente, W ~ χ²(q) sob H₀. Se W > χ²crítico(q), rejeita H₀ — conclusão assintoticamente equivalente à do teste F.

W = (Rβ̂ − r)'  [R · Var̂(β̂) · R']⁻¹  (Rβ̂ − r)  →d  χ²(q) sob H₀, quando n → ∞ · q = número de restrições · Var̂(β̂) = σ̂²(X'X)⁻¹ no modelo linear clássico
Caso q = 1 (um único coeficiente, H₀: βⱼ = 0):   W = β̂ⱼ² / Var̂(β̂ⱼ) = t²ⱼ mesma identidade F = t² da animação anterior — o Wald generaliza essa ideia para vetores
💡 Intuição

Assim como t e F, o Wald também é uma razão sinal-ruído — só que em versão matricial. "Sinal" é a distância entre Rβ̂ e r; "ruído" é a incerteza dessa combinação linear de coeficientes, dada por R·Var̂(β̂)·R'. Quando os coeficientes testados são correlacionados entre si, essa matriz de covariância "sabe disso" — o Wald não trata cada coeficiente isoladamente, mas o conjunto, com sua estrutura de correlação.

🔺 A família Wald / LR / LM

Wald, Razão de Verossimilhança (LR) e Multiplicador de Lagrange (LM/escore) são três testes assintoticamente equivalentes, cada um olhando a verossimilhança de um jeito diferente: Wald usa só o modelo irrestrito; LR compara as verossimilhanças dos dois modelos (é o análogo, em máxima verossimilhança, do teste F); LM usa só o modelo restrito. No modelo linear clássico com erros normais, o teste F é exatamente a versão de amostra finita do Wald — veja a aba "Wald vs F".

✅ Vantagens práticas

Por não exigir reestimar o modelo sob a restrição, o Wald é a ferramenta natural para restrições não-lineares (ex.: H₀: β₁/β₂ = 1, ou H₀: β₁·β₂ = 1 — reestimar um modelo assim sob restrição pode ser difícil ou até inviável) e para modelos de máxima verossimilhança caros de reestimar. Também se generaliza facilmente para matrizes de covariância robustas (heterocedasticidade, cluster, HAC) — basta trocar Var̂(β̂).

⚠️ Duas ressalvas importantes

(1) Amostras pequenas: o χ²(q) é uma aproximação assintótica — em amostras pequenas, o Wald tende a rejeitar H₀ com mais frequência do que deveria (ver aba "Wald vs F"). (2) Falta de invariância: para restrições não-lineares, a estatística W pode mudar dependendo de como a restrição é escrita algebricamente (H₀: β₁/β₂=1 vs H₀: β₁−β₂=0 não são idênticas em amostra finita) — um problema que o teste LR não tem.

A Distribuição Qui-Quadrado

Sob H₀, a estatística de Wald segue assintoticamente uma distribuição χ² com q graus de liberdade (o número de restrições testadas). Assim como o F, o χ² é sempre positivo e a rejeição ocorre inteiramente na cauda direita.

q = 3
α = 0.05
χ²(q) Região de rejeição (cauda direita)
χ² crítico
Graus de liberdade (q)
Área da cauda
🔍 Observe

Com q pequeno, a distribuição χ² é bem assimétrica, concentrada perto de zero com uma cauda longa à direita. Conforme q aumenta, a curva fica mais "normal" (mais simétrica e centrada em torno de q) — é o efeito do Teorema Central do Limite atuando sobre a soma de q quadrados de normais.

Simulação: Wald na Prática

Mesmos dados da animação do teste F: y = β₀ + β₁x₁ + (q variáveis extras com coeficiente comum βextra) + erro. Mas aqui calculamos W usando apenas o modelo irrestrito — β̂ e sua matriz de covariância Var̂(β̂) = σ̂²(X'X)⁻¹ — sem nunca estimar o modelo restrito.

q = 3
β_extra = 0.00
σ = 3.00
n = 60
W (via Var̂(β̂), só modelo irrestrito)
q × F (via SSR, dois modelos)
q (graus de liberdade)
p-valor (ref. χ²(q))
p-valor (ref. F(q,df₂))
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🔗 A identidade exata

No modelo linear clássico, usando a mesma variância estimada σ̂² = SSRur/(n−k−1) nos dois cálculos, vale a identidade W = q·F exatamente — não apenas assintoticamente. A diferença entre os dois testes está só na distribuição de referência usada para o p-valor: χ²(q) (aproximação assintótica) vs F(q, n−k−1) (exata em amostra finita, sob normalidade dos erros).

Wald vs F: Convergência Assintótica

Como W = q·F sempre, a única diferença prática é o valor crítico usado. Compare χ²crítico(q) com q·Fcrítico(q, df₂) conforme df₂ (essencialmente, o tamanho da amostra) cresce — e veja, por simulação, como isso afeta a taxa de rejeição real do teste quando H₀ é verdadeira.

q = 3
df₂ = 40
α = 0.05
q × F crítico(q, df₂) χ² crítico(q) (limite assintótico)
χ² crítico(q)
q × F crítico(q, df₂)
Diferença (%)

Interpretando Resultados Reais

Clique em cada cenário para ver a interpretação correta do teste de Wald.

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